
“Oh, sim, tudo gira à tua volta, meu amor!” Yeah, right! Como se alguém pudesse dizer isso sem mentir com todos os dentinhos que tenha na boca (mesmo que a partir de uma certa idade se minta apenas com as gengivas, não me venham cá com histórias que a ideia é a mesma… a verdade não cresce com a idade, mas sim com o carácter). Sejamos lá honestos! Quando muito, tudo gira à volta da ideia de gostarmos de outra pessoa e não dessa tal pessoa em si. A ideia de se gostar é que nos enche a cabecinha com mundos e fundos (mesmo para quem não conheça esta expressão do nosso extenso acervo de regionalismos, o seu significado é razoavelmente intuitivo). Ora vamos lá encher isto com umas belas analogias. Partindo do princípio que é do domínio geral o básico conhecimento acerca do girassol (a tal planta que segue a trajectória do sol… estava mesmo difícil de se ver), vamos imaginar que a tal pessoazinha por quem se ficou estupidamente “je ne sais quoi” é o sol e que, na mesma ordem de ideias, nós somos o girassol (nós, isto é, vós). Já estão essas cabecinhas a funcionar? Já? Já? Certo. Adiante. Muito bem… o exercício é relativamente simples. Suponhamos agora que de repente dá-se um micro Big Bang no céu e aparece outro sol no extremo oposto acima da linha do horizonte. Pergunta pertinente: em que direcção há-de então o desgraçado do girassol inclinar-se? Pois é! Pois é! Então e agora como é que a tal florzinha amarela (vós) descasca esse abacaxi, hã? Nada mais simples! Faz-se o que se faz na maior parte das vezes… improvisa-se uma mentirola remendada com o pano roto de uma meia-verdade desesperada. “Oh, sim, meu amor… quando estou perto de ti a minha vida é um vaivém de emoções!” Estão a ver bem a trafulhice? Por um lado, não deixa de ser verdade, pois o girassol (sim, vós) vai e vem de um sol para o outro, ao sabor do que mais lhe convém, ou simplesmente ao abrigo da ignorante permissão de um dos luminosos corpos celestiais, ou até de ambos, consoante o nível de sacanice (não esqueçamos que nesta analogia, o sol representa a tal pessoazinha de quem se gosta). Por outro lado, é uma inequívoca e cobardolas indecisão de se escolher o sol que mais brilha e aquece. Mas enfim, estrela a estrela enche a galinha o papo. (oh, poupem-me! Foi o trocadilho que me apeteceu e pronto!) Para não surgir a ideia de que a flor (feminino) que engana o sol (masculino) é a minha interpretação tendenciosa da analogia, também me refiro à flor como girassol (masculino) e ao sol como estrela (feminino). Por isso não me venham cá com teorias mal amanhadas de machismos e tal, que isso cá é selo postal que não cola com uma simples lambidela. O machismo é antagónico da esperteza. E como eu sou notoriamente espertinho… bem, a conclusão é bastante acessível. Continuando… (onde é que eu ia mesmo? Ah!) Pois então, no seguimento lógico da minha excelente analogia, na sua generalidade, os homens são uns grandes aldrabões, e as mulheres umas grandes aldrabonas são. Uns e outros merecem-se tanto quanto as nádegas de uma masoquista merece umas boas chibatadas. (sim, eu disse “uma” masoquista… não é machismo, não… acontece que, como homem, seria no mínimo estranho eu escolher o exemplo masculino quando o feminino está perfeitamente disponível). Mas, para encerrar com uma acertadíssima conclusão repleta de impagável sabedoria acerca dos comportamentos humanos, em última análise, o que cada um vê na tal pessoazinha portadora do vírus da parvalheira, que ataca o coração e desenvolve metástases que fazem mirrar o cérebro, é nada mais do que a projecção de tudo aquilo que nos falta para nos sentirmos completos. (mais uma vez, apenas faço uso da primeira pessoa do plural para uma maior facilidade de expressão). Assim sendo, o que frequentemente se vê nessa tal pessoazinha é a projecção de sonhos e expectativas. As qualidades que se vêem são apenas aquelas que gostaríamos de encontrar projectadas por alguém em nós. Em vez, a desilusão derrota-nos quando percebemos que afinal essa tal pessoazinha não passa de um espelho que reflecte apenas aquilo que projectamos nele. A todos, resta-nos um pequeno conforto: conservar a esperança de um milagre que contrarie tudo isto que acabei de dizer. (sim, desta vez incluo-me no “nós”).
Cão Sarnento.
Sol da minha vida
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