Bola de cristal


Diz-me como vai ser. É para sempre? És capaz de jurar? Podes-me dizer? É isto que preocupa homens e mulheres (não adianta dizer que não, e tal… é treta que nunca vai pegar). É dúvida racional? É insegurança natural? É receio justificado por todos os “para sempre” que já correram mal? É o quê, isso de acreditar que alguém gosta verdadeiramente do pobre coração que bate no peito como um baterista sob o efeito de speeds? Como acreditar no “desta vez será diferente” que se ouve? E, mesmo que nunca se tenha gostado antes e amargado um desgosto, como se pode acreditar no milagre de ter acertado logo à primeira? São muitas perguntas. O futuro é mesmo assim. É uma montanha de perguntas que todos têm de subir para chegar ao cume. Às vezes, até os alpinistas mais experientes escolhem a subida mais acidentada. É difícil resistir à tentação das emoções fortes. É complicado explicar. Resta experimentar. É claro que se pode perfeitamente passar a vida no sopé da montanha, onde o terreno é regular e o piso estável (fucking pussies!). É uma escolha fácil… para quem não tiver qualquer problema em encarar os rostos daqueles que regressam da montanha. Os mais afortunados regressam com objectivo cumprido e um sorriso nos lábios. Aqueles que ficaram a meio, por qualquer motivo, e regressam sem completar a subida, trazem uma expressão menos satisfeita, mas ainda conseguem sorrir com a esperançosa vontade de tentarem novamente. É claro que há riscos consideráveis nisso de subir montanhas. Por mais experiente que sejam, alguns desaparecem durante a subida e nunca chegam a regressar da montanha. “É a vida!” (quem souber do que falo, entende o trocadilho… quem não souber, toca a subir a encosta!). Seja qual for a experiência que se encontra na subida, há uma coisa comum a todos aqueles que se fizeram à encosta: quando regressam, olham para os que ficaram com um desprezo civilizado. É civilizado porque não atiram isso directamente à cara das pessoas que não tiveram a coragem, determinação ou, muito simplesmente, curiosidade para também deitarem os pés ao caminho inclinado. Como as pessoas estão demasiado amestradas pelo convívio em sociedade, não dizem o que realmente lhes vai na vontade. Os que foram não dizem a verdade aos que ficaram. Que o que interessa mesmo nem sequer é chegar ao cume. Há que ser realista. Poucos se sentam no topo da montanha que se propõem escalar. Mas o que interessa mesmo é tentar. Subir. Perder o ar. Olhar para longe e diluir a vista na paisagem. É querer ficar lá em cima para sempre, mesmo sabendo que isso não será possível. As pessoas não foram feitas para viver a essa altitude por muito tempo. O sangue não possui oxigénio suficiente. Resta chegar lá e resistir o máximo de tempo possível, até que a distância da terra obrigue os pés a regressarem ao chão. Eu gosto de subir montanhas. Mas isso sou eu que me seguro bem. Tenho quatro pernas. Sou Cão. Ou, se calhar, até nem é nada disso. Se calhar, sou apenas homem, mas escolho bem a quem dar a mão. Ou, então, tenho a minha parte de quedas e já não dou a mão (nem “sim” nem “não”… este é o “nim” ambíguo do Cão). A pessoa a quem se dá a mão é a pessoa que nos vai segurar quando cairmos. Não pode haver fraqueza aqui. Muito menos do nosso lado. Não podemos esquecer-nos de que essa pessoa a quem damos a mão, se ela cair, leva-nos consigo. E aqui a história complica-se. Se realmente gostarmos dessa pessoa, não lhe largamos a mão, mesmo que nos leve consigo. Mas, se essa pessoa realmente gosta de nós, é ela que nos larga a mão para cair sozinha. É assim que se vê que a escalada vale a pena. Quando se encontra alguém que se sacrifica numa queda solitária para nos poupar. E o que acontece quando se encontra uma pessoa assim? É alguém que também arriscou a escalada. Sempre haverá tropeções. É inevitável. Será possível subir a montanha sem nenhum dos dois cair? Eu sei a resposta. OK, pronto… não sei! Mas isso não interessa para nada, porque a pergunta também não me consome o juízo (que já é escasso). Na minha modesta opinião de observador extraordinariamente perspicaz e inteligentíssimo (manguito para a modéstia, mas é!), o que realmente importa é aquilo que se pode comprovar com a experiência. O bom e o mau. Os sorrisos e as lágrimas. O ter vivido. A certeza em vez da dúvida. O ter sentido. É isso… o medo de errar torna-se o erro maior quando derrota a vontade de acertar. E o futuro é isso. É a vontade de acertar mais forte do que o medo de errar. Diz-me como vai ser. É para sempre? És capaz de jurar? Podes-me dizer? Não. Mas posso tentar. Como num filme (em inglês, como manda a sapatilha… uma daquelas comédias românticas que provocam náuseas de tanto cliché, mas que toda a gente vê, sabe-se lá porquê!)With my fears tamed. Then, I’ll say: “I’m smiling now, you idiot!”

Cão Sarnento.

Poemas do Cão 2


“Ser”

Dá-me o que sentes
O que és
O que fazes
O que tens
O que mentes
Quero
Dá-me como ninguém
Como quem perde
tudo o que tem
assim, na palma da mão
no vazio de não ter
na ilusão de possuir
Dá-me
Quero saber
se vais mentir
recusar
ou lutar
Se vais ficar
ou desistir
Diz-me
Quero saber
se hei-de chorar
ou rir

Cão Sarnento.

A cruz das mulheres


Será mesmo esse o busílis da questão? Será que as mulheres são as mártires (Oh! Coitadinhas!) que se diz que são (segundo a versão das coitadinhas) por causa se serem as portadoras evolutivas daquilo que cientificamente se denomina por “vagina”? Serão as sacrificadas da História que, nos tempos que correm, clamam por voz igual, mesmo que esganiçada (excluindo algumas mais arrapazadas que já vão atalhando caminho)? Serão elas os Cristos dos tempos modernos prestes a ressuscitar triunfalmente? O catano é que são! Se querem saber, mais apropriado seria compará-las a Houdinis sacanas que trapaceiam os mais desatentos com uma bela ilusão conseguida às custas do seu… chamemos-lhe singular equipamento. Pois é! Nada de ilusões aqui! A parafernália tipicamente feminina, que os mais curiosos poderão verificar que se encontra lá para os lados do entrepernas do mulherio (não vou dar a localização exacta para manter a expectativa dos curiosos teóricos sem experiência de campo), é instrumento de suprema manigância! (oh, se é!). Tal como qualquer homem (com o mínimo espírito aventureiro de um Indiana Jones ginecologista) poderá confirmar, às vezes, quando em contacto directo com essa tal de vagina, a realidade assume contornos algo estranhos, e o próprio corpo masculino (ou, pelo menos, certas partes dele) deixa de corresponder às ordens do pensamento (isto, quando não é o próprio pensamento a mandar todas as ordens às favas). E os efeitos maléficos de tal proximidade não se ficam por aí! Era o ficavas! Como se não bastasse tamanha insolência do próprio corpo ao qual se dá ordens desde sempre, os homens (os verdadeiros mártires, claro está) ainda dão consigo, não poucas vezes, a deambular na eterna dúvida de não saberem se essa tal de vagina não será antes um disfarçado comando à distância, embutido sorrateiramente no corpo feminino pelo Criador, que serve para controlar o corpo masculino através da recepção de impulsos (sejam eles quais forem) captados por uma antena receptora estrategicamente atarraxada no homem, à qual, em termos técnicos, se atribui a designação de “pénis”. Se esta possibilidade fosse devidamente considerada, sem o evidente escárnio da comunidade científica (uma cambada de presunçosos!), originaria um grande tratado académico de incalculável valor sociológico que, seguramente, explicaria muitas questões essenciais no que concerne ao relacionamento entre homens e mulheres (assim, de repente, não me ocorre nenhuma questão que seria esclarecida, mas isso também não vem a caso, que o que interessa mesmo é o valor argumentativo da afirmação). Enfim. A arrepiante questão que se impõe é esta: “Serão os homens (hetero) uns acólitos involuntários da extensa doutrina de caprichos professados pelas mulheres (hetero e afins), calculada e friamente comandados à distância através de uma implacável e assustadoramente eficaz tecnologia sem fios?” Uma questão assaz pertinente! Eu sei a resposta mas, infelizmente, é coisa que não posso revelar. Tenho… de… obedecer… aos… impulsos! (há que manter a ilusão do controlo). (raios! O parêntese anterior não era para escrever!).

Cão Sarnento.

O faro das fêmeas


Coisa mais fraquinha! E pronto, não fosse eu um bocado tagarela (é fazer o favor de conotar com eloquente), isto seria tudo o que haveria para dizer acerca do faro das fêmeas. Mas como sou mesmo tagarela (eu até prefiro a expressão linguareiro, mas se calhar ia ter de explicar o seu significado, e talvez aproveitar para fazer algum trocadilho incrivelmente bem sacado, mas… náh!) … voltando ao raciocínio… como sou mesmo um bocado linguareiro (pronto, teve de ser), até vou espalhar por aqui uns brindes de maravilhosas tiradas de lógica irrefutável e, quiçá, transformarei as minhas sábias palavras numa brilhante alocução filosófica. Pois bem, vou directo ao assunto. A cavalo ou a mariconço? Afinal, qual é o odor que o nariz das mulheres prefere detectar num homem? O cheiro a cavalo é… bem… (como é que hei-de explicar isto a quem não sabe realmente como cheira um cavalo? Bem, tenham em mente o cheiro a sovaco sem desodorizante depois de duas horas de ginásio… dá para fazer uma ideia bastante simpática da dita fragrância). O cheiro a mariconço é… (raios! Os mariconços são tantos por essas ruas que é verdadeiramente difícil identificá-los a todos com o mesmo rótulo… é lavanda, é pinho, é… é… flores do campo… raios!). O melhor mesmo é abordar a questão em outros termos. Um homem a cheirar a corpo, a pele, a quente? Um homem a cheirar a amaciador de roupa, a perfume, a fresco? Qual, hã? (devo esclarecer que não pretendo realmente que me respondam, uma vez que eu mesmo me vou encarregar de o fazer). Ora vejamos… um homem a cheirar a corpo não é necessariamente mau. Se os cuidados de higiene forem regulares (qualquer coisa que inclua um banho diário ou, vá lá, sem grandes exageros… dia sim, dia não), já é o suficiente para não fazer as flores murcharem nos vasos. Pessoalmente, eu gosto do cheiro da minha pele. A parte do “quente” foi só uma mensagem manhosa para iniciar o motor de arranque da libido e deixá-la a trabalhar no subconsciente de quem quer que leia isto. Mas vejamos também o outro lado… um homem a cheirar a amaciador de roupa também não é necessariamente mau (isso, se excluirmos os indicadores lógicos de que poderá ser um panhonhas casadinho, ou um pendura da mãezinha que lhe trata da roupa, ou aquilo a que algumas pessoas, já de si dementes, chamam de “doença”… mas, pronto, também pode ser apenas um tipo que não goste de andar a cheirar a mofo ou a naftalina). Pessoalmente, o cheiro de certos perfumes também me agrada. Mas, nesta questão, confesso que me confundo um bocado. Quero dizer, se um perfume de homem me agrada, é natural que também agrade a outros homens. À partida, pode parecer não haver qualquer motivo para confusão. Ai não que não há! Então vejamos… é claro que convém o homem gostar do perfume que usa mas, sejamos honestos, essa não é mesmo a prioridade… o objectivo é agradar às mulheres. E se um homem erra na escolha do frasquinho e anda por aí a cheirar a… a coisa boa para outros homens? Pode muito bem ser atacado à traição em alguma esquina (ou em qualquer outro lugar sem conotações ambíguas). E o lixado da coisa é que nem sequer adianta usar secretamente perfume de mulher (que, supostamente, também agrada às mulheres) porque, alegadamente (para não repetir supostamente), ainda agradará mais aos homens. Ah! A parte do “fresco”… aaa… isso foi apenas para servir de oposição a quente, já que estava a tentar fazer uma distinção, e tal (Ok, pode não ter sido essa a razão, mas eu invento as baldrocas que bem entender). Hum… fazendo um apanhado, acho que as mulheres gostam mesmo é de encostar o queixo entre o pescoço e o ombro (algures na zona da clavícula) de um homem, fazerem o seu “snif” hormonal (ou qualquer outra expressão que entendam mais romântica) e pensarem lá para elas: “Hum… que cheirinho bom! Não sei o que é, mas é mesmo bom!” E é precisamente aí que o faro das fêmeas falha! (aposto que não esperavam por esta dramática reviravolta quase no fim do filme). E falha porque as mulheres farejam directamente com o cérebro sem passarem grande cartão ao órgão sensorial que existe precisamente para efeitos farejadores (além de contribuir para caras bonitas… e feias, já agora). Hello! O nariz está mesmo na frente dos olhos, ó mulherio! É que o cérebro das mulheres (ou a falta dele) faz com que elas deixem os homens passarem na inspecção, mesmo quando as coisas não lhes cheiram bem (sim, acabei de utilizar um trocadilho de profundo e considerável valor metafórico… treinem palavras cruzadas e depois resolvam a charada). Sabem, é que o cérebro tem um defeito que o torna absolutamente imbecil em questões de percepção sensorial: frequentemente, dá-se a liberdade de se estar perfeitamente a marimbar para os sentidos básicos que restaram do longínquo passado do instinto animal. E pronto, é dessa maneira que, às vezes, as mulheres dão consigo a gostar de um homem que, apesar de tomar banho, usar perfume (ou o simples desodorizante, vá), cheira a cavalo de estábulo sobrelotado. Mas isso também acaba por não incomodar por aí além a muitas mulheres… desde que o homem saiba galopar e as monte como a umas éguas. (esta afirmação foi mesmo para desafiar soco… o que não invalida qualquer eventual sapiência contida nas entrelinhas). Resumindo (desta vez é para valer): mulheres, às vezes, os homens não cheiram assim tão bem… vós é que “pensais” que cheiram. (pronto, certas pessoas menos informadas acerca deste fenómeno de má percepção sensorial também lhe podem chamar amor, ou lá o que é).

Cão Sarnento.

Eu, polígrafo


Foda-se! Odeio que me mintam! Mas a vida é mesmo assim … haverá sempre quem nos tome por lorpas. Lorpa é coisa que não sou (só para deixar claro aos lorpas). Até as células mortas que me saem da pele todos os dias possuem inteligência suficiente para não ficarem a meter nojo à espera do banho. Quando eu sei que me mentem, isso esgana-me por dentro! Encolhe-me as entranhas e ferve-me o estômago em ácido (e essa é apenas a leve sensação de ardor que sinto no início). E por que razão a mentira me é assim tão cáustica? Tenho mesmo de responder a isso? Não é cáustica para toda a gente? Não! Foda-se! Não, não é! Há quem não se importe de comer com ela nas trombas todos os dias. Well, not me, caralho! (não há expressão alguma em inglês que supere o bom e velho caralho). Há até quem diga que eu estou sempre com o caralho na boca (riam-se lá do trocadilho imbecil, se assim o entenderem) mas, por mais que a minha heterossexualidade se vomite toda com a simples ideia de tal circunstância, eu preferiria estar com um caralho entalado na boca do que cuspir mentiras à boca cheia, como quem dispara caroços de cerejas como arma de pressão, à laia de coisa pequenina e sem importância. Pois bem, agora imaginem que um desses caroços de cerejas cuspidos acerta em cheio num olho de alguém. Lá está. Aí já é o caralho! Deixa de ser coisa pequenina e sem importância, porque essa porcaria arde que se farta e faz tremer a vista. Principalmente, se esse alguém deixou bem claro que não gostava de testemunhar essas ditas cuspidelas, e pediu antecipadamente, e com muita educação, que não se cuspisse na sua direcção. Depois disso, normalmente, a educação vai-se para parte incerta. Pelo menos, na grande maioria dos casos. No meu caso não é bem assim. Acontece que, mesmo abominando que me mintam, às vezes, eu permito educadamente que o façam. E (isto pode até parecer difícil de entender mas) permito-o ainda mais às pessoas de quem gosto. É que a mentira azeda-me e deixa-me um autêntico cabrão! (já passo a explicar a cabronice). É o seguinte… se a pessoa que me mente não me interessa particularmente, tão-pouco me interessarão as eventuais mentiras que possa cuspir na minha direcção. Os meus reflexos caninos permitem-me esquivar dos caroços de cerejas com relativa facilidade e eficácia. O problema é quando a pessoa que me mente está cá dentro do peito do Cão e merece (ou merecia até ao momento da mentira) a minha consideração. É que a coisa funciona assim: quando farejo a mentira (normalmente, nos primeiros instantes em que o caroço da cereja é cuspido na minha direcção), eu deixo a tal eventual pessoa estimada falar, enquanto penso cá para mim: “Mau! Isto não me está a cheirar nada bem!” (faro de cão, é importante que não se esqueçam). Mas no início é apenas uma impressão que fica. Sem a confirmação será sempre e apenas uma suposição. Acontece que logo que o instinto me faz latejar uma suposição dessas dentro dos ossos do crânio, o animal torna-se sacana na busca da confirmação e começa a dar corda para a eventual pessoa mentirosa se enforcar. E é com considerável tristeza que admito que acabo por assistir ao desagradável enforcamento na primeira fila, mesmo em frente à forca. Fico para ver até que ponto uma pessoa estimada (que dizia estimar-me de igual modo) pode ser falsa como uma nota de quinze euros. É uma lição difícil mas, se a aprendermos direitinho, facilita a aprendizagem das lições que se seguem. Além disso, há uma certa justiça poética no acto de permitir que a pessoa mentirosa se enrede nas malhas furadas das suas próprias mentiras. Depois, fico “insensível e distante”. Pelo menos, é o que me dizem os fantasmas das pessoas mentirosas depois de se suicidarem por asfixia com a boca cheia de caroços de cerejas. Sim, deve ser mesmo isso… grande cabrão que eu sou! Como é que eu pude deixar que me mentissem sabendo que me mentiam? Como é que eu fui capaz? Sim, têm mesmo razão essas pessoas afantasmadas coitadinhas… Sabem que mais? Têm é mais sorte do que merecem por o Cão não ser vingativo!

Depois da primeira mentira, a segunda é imunda… já não se retira… é mais fácil de dizer, e a terceira já é mesmo verdadeira. Jura-se que é verdade com toda a vontade. A verdade torna-se maldade e o amante, esse, não esquece… arrefece e vai-se curar do corte, procurando alguma verdade que lhe calhe em sorte, em qualquer lugar distante, longe da mentira marcante… (apeteceu-me dizer isto antes de acabar… para não pensarem que é só caralho para aqui e para acolá… e quem o pensar tem bom remédio… um supositório de 20cm no esfíncter… com a forma dum caralho!)

Cão Sarnento.

Instruções de montagem


As primeiras peças são para montar com cuidado. Carinho no rosto, festinha onde mais der jeito. Beijito na sobrancelha, escorrengaço para o canto da boca. Massagem “como quem quer a coisa” nas mamocas (se as encontrar), apalpadela desconfiada nas nádegas (estão lá sempre). Tudo muito bem encaminhado com jeitinho, que é para não assustar a criaturazinha feminina largamente conhecida pela designação de “gaja” (que, em latim, significa “gaja”… se tiverem suficiente sentido de humor). Ora, isto é tudo muito bonito, mas a coisa não vai mesmo lá com instruções. Ao fim e ao cabo, faz-se sempre o que se faz com o móvel que se comprou desmontado numa Moviflor qualquer, passando logo para a montagem do dito cujo, presenteando as respectivas instruções de encaixe das várias partes com um mui excelso marimbanço. É claro que, já a meio do vamos a isso, começa a crescer aquele nervoso miudinho de quem não percebe patavina de onde deve encaixar o quê e, como uma criança contrariada por ter de admitir que não consegue montar o brinde do ovo kinder, lá se recorre por fim às malfadadas instruções de montagem. Pois tudo muito bem, sim senhor, mas… as gajas não trazem com elas as devidas instruções, com as respectivas ilustrações, de onde se deve encaixar o quê. As instruções de como se monta uma gaja devem vir sempre com quem? A assustadora realidade é apenas uma: com o gajo que a monta, claro está! Acontece que, por piada cósmica, ou qualquer outra brincadeira de entidade metafísica, a maior parte dos gajos também nem sequer sabe montar o tal brinde do ovo kinder (e esse até vem com instruçõezinhas coloridas). Nesse infortúnio predestinado de autêntica tragédia grega, resta às gajas a complicada tarefa de trazerem com elas as suas próprias instruções que lhes ensinem a montar os gajos. (só um momento, enquanto me engasgo a rir… tanto pelo trocadilho como por tudo o que é subentendido na expressão). É claro que tem de haver uma incomensurável dose de frustração perto da qual os Himalaias não passam de um montículo de terra peneirada pelas formigas. Frustração de ambas as partes, claro está. Da parte das gajas, porque mal sabem para elas quanto mais para ensinar aos machos imbecis que só sabem balbuciar “sim… isso!” quando, por si mesmos, nunca eles chegariam ao tal “isso”. Da parte dos gajos, porque, por mais que as esforçadas fêmeas os tentem ensinar, eles simplesmente desligam o cérebro e não pescam nada daquilo que se fez em atabalhoada velocidade supersónica, acabando por perder os sentidos quando a aceleração cardíaca atinge mach 5. É aí que o gajo vira para o lado todo satisfeitinho, na sublime ignorância de um sorrisinho, e adormece alheio ao facto de que, se fizesse alguma coisa pela vida, montar uma gaja (ou ser montado por uma, vá), seria infinitamente mais divertido. Entretanto, a gaja que se quilhe (um eufemismo para a palavra do “f”, está bom de ver). Resta-lhe pegar no comando, ligar a TV e apanhar a meio um episódio do CSI. Talvez aprenda com se desfazer do corpo deitado ao seu lado sem deixar rastos nem suspeitas. OK, vou admitir que a maior parte da frustração vai mesmo para a gaja. E, já agora, para mim um bocadinho também… mais tarde ou mais cedo, acaba por me calhar uma dessas fêmeas que foram muito mal encaminhadas, por essa cambada de incompetentes, na complicada arte de montar mecanismos que não param quietos durante o procedimento. Ou seja, a batata quente sobra cá para o rapaz. Isso sim, dá raiva na saliva deste Cão.
Cão Sarnento.

Tea for two



“Sim, meu amor, para sempre!”, e depois ala que se faz tarde! É! É mesmo assim que nos despacham, acabando por desaparecer do quentinho dos lençóis, todas as pessoas que nos prometem mundos e fundos, sabe-se lá com que intenções. Se, desde o início, foi apenas coisa de cama, perfeitamente esclarecida e sem equívocos de melodrama com enredo simplista de celofane, não há enganos a perdoar nem mentiras/verdades para atirar às respectivas trombas da respectiva outra pessoa. É assim e mais nada. Foi só uma cambalhota rebolada com prazer de parte a parte (se a coisa correu bem), e não houve cá secretas intenções de casório num qualquer domingo soalheiro de Agosto carregado de irritantes casamentinhos de emigrantes (nada contra os imigrantes e seus respectivos casamentinhos, mas temos de convir que ainda restam mais onze meses úteis no ano para o raio do nó… do laço, da gravata, da forca, ou lá da metáfora que mais entenderem apropriada). Mas, pronto, prontinho, prontidão… a vida é assim, quer queiramos ou não (apeteceu-me rimar… e depois!). Não adianta ficar na manhã seguinte a carpir choraminganços de triste pessoazinha enganada por cima da solitária xícara de chá (ou qualquer outra bebida perfeitamente inútil na cura da tristeza, mas com ilusórios efeitos placebos para o que quer que seja que mirra o pensamento e derreia o corpo). Depressão? Deixem-me que lhes fale do que é depressão. Depressão é sermos tão deprimentes que, sempre que estamos no meio de uma multidão, o pássaro nos caga sempre a nós na coroa de cabeça. Maior depressão ainda é ser a única pessoa no meio de um enorme deserto, como uma vastidão do caraças em redor, e o tal pássaro cagão soltar o seu projéctil kamikaze que acertará mesmo em cheio na mona deprimida da tal pessoa deprimente. Depressão é doença? É. É, sim. Uma doença do caralho, se me permitem a caralhada (se não me permitem, permito-me eu, que é a permissão que me interessa para dizer o que bem entendo). Ai Jesus, que a minha cara-metade anda a completar-se às escondidas com outra metade qualquer! Ai Jesus, que as minhas finanças são o equivalente histórico à Quinta-feira Negra! Ai Jesus, que nunca passarei férias naquela paisagem de postal! Ai Jesus, que o mundo inteiro está contra mim! Ai Jesus, que estou com entradas na testa! Ai Jesus, que parti uma unha! Ai Jesus, que ai Jesus! Tenham tino, pá! (e já agora, essa cena do “Ai Jesus” é só mais uma acha altamente combustível para toda essa fogueira deprimente). Se balir o nome do divino gajo não se adiantou a ele próprio, o que acham que adiantará a alguém? Néris di pitibiriba! (ou lá como esta treta com sotaque brasileiro que significa “nada” se escreve… eu ainda era um espermatozóide de infantilidade quando ouvi a expressão numa novela qualquer). The bottom line is… weeping over past fucking people who didn’t give a pubic hair about us it’s just stupid. Ou, se preferirem em língua de gente: pá merda com isso! Deprimido fico eu ao perceber que as pessoas encontram o seu Fim Do Mundo pessoal ao virar de cada esquina, no mais pequeno obstáculo do dia-a-dia. Ganhem lá espinha dorsal! E… ficar a pingar autocomiseração sobre xícaras de vapor que arrefece, a remoer afectos que não existiram… isso é coisa de gente que não sobrevive ao quebrar de um prato com defeito de fabrico, comprado à dúzia numa qualquer loja dos chineses.

Cão Sarnento.

Cantigas de embalar


O ir e o voltar da sanidade… essa percepção da razão que nem sempre fica quieta no sítio onde mais chamamos por ela. A dúvida! Essa sim, a maior tortura. A assassina de rosto encoberto por vontades que não são nossas nem pertencem a ninguém. Raramente deixamos de nos perder no caminho quando vamos mais além… atrás de alguém. Isto de caminhar pela areia molhada, seguindo a saliva do mar, é percurso que deixa marcas no coração… tem de se caminhar a sós, seguindo as próprias pegadas. Para seguir as próprias pegadas só andando para trás. Esse caminho leva-nos apenas aonde já estivemos, revisitando os lugares do passado onde já vivemos. Matamos saudade das boas decisões. Bebemos uns copos com as más. Rimos de ambas. Com ambas. Não podemos deixar-nos levar pela xenofobia dos erros. Serão nossos para sempre. Não adianta renegá-los para guetos obscuros onde a amnésia governa com punho de ferro e vontade inflexível. O que estou a dizer? Muitas coisas que fazem sentido para pouca gente. Nada que interesse. Não falo para ninguém para além de mim. Se calhar não é verdade. Se calhar é mentira… Não ser verdade não é bem a mesma coisa que ser mentira. Não quero explicar isto. É coisa que não se disseca em cima de mesa de inox com pequenos ralos por onde se escoa o sangue morto. É coisa para se entende sem explicações. É coisa que é coisa. Poucas coisas são realmente coisas. É difícil ser-se coisa… acaba-se por não ser coisa alguma.
Coisa disforme e sem sentido
Que é barro negro por moldar
Nas mãos grossas do oleiro
Um ser nem livre nem contido
Onde cresce a vontade de recriar
Aquele nosso amor primeiro
São estas cantigas de embalar que nos adormecem a razão. Levam-nos a capacidade de sermos adultos. Devolvem-nos a meninice dos melhores anos e trazem-nos de volta a falta de vergonha que nos deixa dormir no chão. É bom dormir no chão. Não por necessidade, mas por vontade. Aproximar a orelha à terra e ouvir o seu pulsar. Encostar o rosto e sentir o calor do seu ventre. É impossível não querer regressar lá. É uma união sexual com tudo o que existe. É o sentir da carne mesmo não sendo carne. É o sentir do corpo sem fazer distinção entre homem e mulher. É sentir por sentir. É querer o que se quer. É dessas coisas verdadeiras que as pessoas se esqueceram de sentir falta. É mais um entorpecimento do que um esquecimento. As pessoas não sentem que sentem falta disso. É como a carne entre duas pessoas que se gostam. Nessa comunhão, sexo nunca é apenas sexo. As palavras não importam. Quando o querer é verdadeiro, amar e foder significam exactamente a mesma coisa. E esta é coisa que não se explica. Falta sabedoria às palavras. Às palavras inteligíveis sujeitas ao sufoco das regras. Quando os corpos se unem pela vontade e pelo querer, as regras vão-se para os primórdios animalescos da verdade humana. Vão-se para esses tempos recuados em que as palavras não enganavam. Em que os grunhidos e os gemidos faziam justiça às emoções que moviam os corpos. Que falta me faz o animal! Que saudades do primitivo. Eu sou isso. Cá dentro, em mim, sou. A tal fera que arreganha os dentes na máxima contracção muscular do orgasmo. Arqueio as costas numa obrigação ditada pelo momentâneo devaneio do cérebro. Mas, depois, regressa a racionalidade. Olho para a pessoa que me fez vir. Veio-se comigo, num qualquer ideal de sintonia que raramente existe de verdade. Olho-a nos olhos e sinto logo a falta desses instantes que já se foram. Esses instantes em que a outra pessoa foi tão irracional como eu. Sinto falta, porque as palavras voltam. Voltam sempre. O que me rouba não são as palavras, mas sim os significados complicados que elas trazem consigo. Olho a pessoa que me deu o seu corpo e aceitou o meu, e entristeço. A fera que vi nos seus olhos já não vive lá. Mesmo o reflexo de mim… esse já não sou eu. “Oh! Numechateies!”, diz-me essa pessoa com olhos de fera adormecida. Sorrio. Apenas sorrio. Cá dentro, a fera sobe ao mais alto penhasco anoitecido para uivar à lua cheia… mas apenas cá dentro, dentro de mim. Por fora, sorrio. Apenas sorrio.

Cão Sarnento.

Capuchinho Vermelho



“Avozinha, porque tens uma boca tão grande?”, pergunta a miudinha estúpida (ou míope) que não vê logo que o raio da velha é um lobo disfarçado. “Ora, minha netinha… PARA TE COMER MELHOOOORRR!”, responde o lobo (mau?) logo antes de comer a adolescente parva de uma maneira não especificada. Evidentemente, o mau da fita nessa história da carochinha (sem carochinha), é o lobo. Errado! Está perfeitamente claro que o bicho é vítima do mais profundo preconceito social. Então, já pararam para reflectir um bocadinho acerca da realidade dos factos que, por sua vez, são fictícios? “Nariz tão grande! Orelhas tão grandes! Olhos tão grandes! Boca tão grande!” Que porra! Será que o raio da rapariga sofria daquela doença esquisita em que a pessoa apenas consegue identificar partes do rosto mas não o rosto em si, como um todo? O que era, afinal, necessário para que ela percebesse que quem lhe falava era um lobo? (já nem vamos tentar interpretar o facto de o lobo falar). Também há que considerar a possibilidade de a tal avozinha ter sido um soberbo exemplar da mítica “mulher do norte” (pensem em montanhas e no Bigfoot) e que as semelhanças entre ela e o animal possam de facto ter induzido em erro um par de olhos mais desatentos. Mas estas e outras interpretações semelhantes apenas poderão fazer verdadeiramente sentido nas cabecinhas das pessoazinhas inocentinhas. Vamos lá abrir os olhos para a realidade e chamar as coisas pelos nomes. A Capuchinho Vermelho era uma grande cabra, isso sim! Melhor será dizer… uma inacreditável cadela dengosa! Oh, sim! Porque, depois de analisar bem a história, torna-se evidente que a vítima no meio disto tudo foi nada mais, nada menos, do que o próprio lobo. Foi uma jogada muito bem pensada! Na verdade, a avozinha nunca existiu. Foi tudo invenção da menina (que não era assim tão parva). Quando o lobo a encontrou no meio da floresta, ela convenceu-o de que ia levar à avozinha uma bodega qualquer dentro do cestinho. Quando o lobo atalhou caminho e chegou à casa da velha, não a encontrou, claro está. Mas, uma vez que já tinha entrado e já, decidiu disfarçar-se da imaginária carcaça mirrada e enfiou-se na cama à espera da menina inocentinha. Menina inocentinha uma grandessíssima e refinada porra! A Capuchinho era lá uma menina! Era uma mulher muito bem feita, e ainda mais safada, isso sim! De onde acham que vem a expressão: “Mas afinal pensas que isto é a casa da avó, ou quê!” (pronto, talvez não venha da história do Capuchinho, mas apeteceu-me usá-la como argumento de retórica). O lobo é que caiu no conto do vigário. E esta é uma extraordinária analogia (evidente) retirada da minha genial capacidade interpretativa (também evidente), que pode ser aplicada ao comportamento que as mulheres dos tempos modernos adoptam em relação aos homens (digo, aos machos incautos, e com a mania balofa de que são wise guys). Os machos que acham que são espertos olham para as meias altas da menina e vêem uma adolescente que será uma potencial presa fácil. Os machos que, efectivamente, são espertos, olham para as meias e espreitam sorrateiramente por baixo da saia, para verificar se estão presas por um cinto de ligas. Mais vale desconfiar e verificar do que presumir e cair. Se o lobo se tivesse dado ao trabalho de espreitar para dentro do cesto, certamente que teria achado estranha a presença de duas marcas diferentes de lubrificante, preservativos sortidos e um dildo com medidas respeitáveis. Hoje em dia, são as meninas inocentinhas que abocanham (façam lá a piada manhosa que entenderem) os machos com mau nome na praça. Chamam-lhes um figo (ou qualquer outro fruto com fama exagerada de coisa boa), e os desgraçados às vezes nem sabem o que os atingiu. É a evolução dos tempos. Cada vez há mais Capuchinhos Vermelhos por aí, e também abundam os lobos que se disfarçam de inocentinhos, alheios ao facto de que, na realidade, são eles que estão a cair na esparrela. É viver e aprender. Felizmente, sou Cão.

Cão Sarnento.

Amantes de cristal




Complementos ou substitutos? Eis a questão. Mas, questões, há muitas. Como por exemplo: por que raio muitas mulheres insistem em brincar sozinhas quando, na verdade, o que não faltam são homens a quererem entrar na brincadeira? Custa assim tanto dizer “vamos lá a isso, que a brincadeira é danada de boa e até dizem que faz bem à saúde”? Custa? Oh, não, credo! Isso não, que vão pensar que são fêmeas fáceis, putéfias e afins. Deixem-se lá de lugares-comuns arcaicos, que as palermices do milénio anterior não fazem cá falta neste que está nos primórdios. É certo que eu aprecio um bom desafio (mulher que aquece, arrefece e volta a aquecer, e tal), mas, a bem da honestidade, esse jogo do “chega para cá e agora põe-te a milhas” torna-se verdadeiramente aborrecido quando, à partida, ambos percebem que o que interessa é a parte do “chega para cá”. É claro que vai haver sempre os tais defensores dos “bons costumes e da moral”. Quanto a isso, não há nada a fazer. É o karma da Humanidade. Sugiro que esses tais pobres machos se enrabem todos em fila indiana até fazerem um círculo em volta das suas pobres fêmeas, que se verão obrigadas a coçar os respectivos grelos com os seus deditos (sim, porque não há honestidade para arranjar um brinquedinho), desejando por tudo quanto lhes é mais sagrado estarem fora do círculo de panascas, onde há homens que conhecem brincadeiras que vão além de brincar aos sodomitas. Não que haja algum mal em brincar ao faz-de-conta, fingindo que se é um qualquer habitante da bíblica Sodoma… cada um faz o que bem entender com o orifício situado entre os seus nadegueiros. Cada um é como cada qual. Mas confesso que quase me aborrece a mania pandémica de as mulheres insistirem em mandar que os machos interessados vão mas é levar no cu quando, no pensamento, as queima a vontade vulcânica de lhes oferecerem o próprio. Em vez de o fazerem, vão para casa colocar o dildo de cristal na boquinha para humedecer e aquecer muito rapidamente, enquanto a vontade do pecado não se vai. Logo a seguir enfiam-se na banheira, com espuma de sais até ao pescoço, para lavar o que resta dos “maus pensamentos”. Acontece que essas fêmeas asseadas se esquecem sempre de lavar numa parte que, em crianças, somos martirizados para nunca esquecer… lavar bem atrás das orelhas. Lá, pertinho da nuca, onde nascem os pensamentos que nem o mais potente gel esfoliante consegue desbastar. Fechando o círculo (não, não é o tal dos panascas moralistas), e voltando ao início… se os tais amantes de cristal (ou plástico, ou silicone, ou borracha, ou couro… e o que mais o Marquês de Sade pudesse imaginar) são complementos, venham eles que, em boas mãos, a brincadeira agradece. Mas se forem substitutos, bem… boa sorte quando chegarem ao ponto de lhes dizerem “pára” quando, na verdade, a última coisa que querem fazer é parar. Em questão de substitutos, quem manda é a mãozinha. E quando se chega ao ponto em que o macho deveria parar por momentos, para prolongar a agradável tortura, a mão da fêmea acelera e despacha a coisa como quem tem de tomar café à pressa, já com vinte minutos de atraso para picar o ponto no trabalho. Mas, enfim… repetindo a velha máxima: cada um é como cada qual… uns são de plástico, ou silicone, ou borracha, ou couro, ou (requinte dos requintes) até de cristal!
Cão Sarnento.

Não me ames assim



Hoje apetece-me falar de coragem. Apetece-me ajoelhar-me no chão, bater com a testa no pavimento várias vezes, em adoração a uma divindade silenciosa dos tempos modernos. A divindade é, obviamente, a “coragem”. Lamentavelmente, tal como todas as divindades, a coisa carece de provas e verificação científica, não é? Bem, na verdade, não é exactamente assim. Esta divindade dos tempos modernos existe de facto, e os seus adoradores crescem a olhos não vistos (sim, eu disse “não vistos”). Esta divindade é adorada pelos seus seguidores de um modo bastante peculiar, que consiste basicamente em… qual é mesmo a expressão adequada?..ah, sim… “porrada pró lombo”. O mais alto ideal dos seguidores desta religião florescente é o evidente “até que a morte nos separe…” (uma vez que a Justiça é lerda, e de outro modo não vejo jeito… mas isto já sou eu a divagar). O dogma fundamental de tão elevada doutrina é uma ideia muito simples: “A violência doméstica não existe”. E sabem que mais? Todos começamos a acreditar nessa mentirola professada pelos decanos ignorantes da vidinha desgraçada e amordaçada. E mesmo aqueles pobres diabos que se julgam no direito de dizer, “ah, e tal, essa vossa religião é uma treta de jumento com palas nos olhos” são facilmente silenciados com a filosófica arma secreta: “entre marido e mulher, ninguém mete a colher!” (a simples lógia, que nos permite concluir que uma reles colher não impede ninguém de levar na tromba, facilmente expõe a imbecilidade inerente a tal comentário). Apesar do meu elevado entender em matéria de relações interpessoais, confesso que não compreendo onde esses crentes corajosos vão buscar tanta fé para se manterem apegados a uma religião tão exigente. Se calhar sou eu que apenas não vejo a sublime verdade (para os fiéis seguidores, são sempre os outros que não vêem… o que quer que seja que eles “imaginam”… que, na maior parte das vezes, cinge-se apenas ao raio que os parta). Pois bem, chamem-me retrógrado, se assim o entenderem, senhores seguidores da tal “fé coragem progressista perfeitamente normal dentro de quatro paredes conjugais” (… a ver se eu não me estou bem a defecar para o que assim entendam), mas é que, simplesmente, não me entram na cabeça duas coisas, a meu ver, bastante ilógicas: a) por que razão o homem bate na mulher; b) por que razão a mulher se deixa bater. Podem explicar-me? “Ah, e tal, não é bater… não é. Acontece que todos os casais têm desavenças.” Pois… deve ser mesmo isso… apenas uma questão de semântica. Pronto, Ok… também há mulheres que batem nos homens, é certo (o que, a meu ver, até está muito bem para essas coisas de igualdade de direitos, e isso), mas como a percentagem dessa ocorrência é tão ridícula como a própria ocorrência em si, aqui fica a nota de rodapé, a bem da justa menção dos dois lados da questão. Lamentavelmente, a questão não tem apenas dois lados. Ai pois não tem, não. Esta religião dos tempos modernos é um raio de um polígono que tem mais faces do que um esquizofrénico sob o efeito de LSD. Essas são as faces a quem a religião coragem mais exige fé. Pois esta doutrina de “não meter a foice em seara alheia” é daquelas que se propaga às custas de sacrifícios cerimoniais. No início, eu disse que me apetecia falar de coragem, mas só tenho falado de cobardia, não é? Bem, a tal coragem que publicitei referia-se àqueles que realmente precisam dela… as tais vítimas cerimoniais desta religião silenciosa dos tempos modernos… os filhos. Os restantes, esses, mantenho o que disse… ajoelham-se perante o altar da coragem mas, na hora de sofrer, preferem sacrificar as vítimas da sua cobardia. Raios! Deve andar no ar algum vírus mirabolante, que não sei o que me deu para escrever isto… na verdade, eu só queria dizer uma frase: “fechar a mão e bater é feio… fechar os olhos e negar é monstruoso.” Era só isso.

Cão Sarnento.

The Devil in me



Há um ditado sacana que diz: “Good girls go to heaven. Bad girls go everywhere.” Para quem não percebe lá muito bem a língua dos “camones”, quer isto dizer que a parte do mulherio que anda com o pito aos saltos é que se safa (OK, já sei que a tradução não é propriamente ipsis verbis… latim, e tal…) É claro que não vou estar agora a criticar o puritanismo de ninguém (cada um desperdiça a sua vida como bem entender). E tão-pouco vou começar a cantarolar hinos à promiscuidade (hoje não há mais borlas para ninguém… já chega a figurinha manhosa de Demo com que apareço na ilustração). O que eu vou fazer é admitir uma coisa muito simples… às vezes, é bom ser mau! (sim, sim, é isso mesmo que escrevi! Não me chateiem com moralismos pirateados que se compram nos marroquinos da feira semanal!) Digam o que disserem, os panhonhas (bela palavra!) simplesmente não são os homens da vida de ninguém! Há que admitir com toda a honestidade! Homem que é homem… (OK, esperem… esta expressão é um machismo imbecil… outra abordagem). Um macho que tenha as amêndoas devidamente acondicionadas no saquinho sabe bem que a mulher que quer para mãe dos seus filhos não é necessariamente a mulher da sua vida (e acrescento um vice-versa duplo… só para me rir). Para mãezinha, serve a boa dona de casa muito prendada (as prendas incluem cozinhar como um chefe francês, arrumar como um batalhão de mulheres-a-dias, e ver as suas telenovelas de boca calada!). Boa mãe. Boa dona de casa. Boa esposa. Isso é muito. Muito mais do que se imagina mesmo! Mas nem sequer soa mais alto do que um suspiro da tal “mulher da minha vida”. Pode parecer injusto (e, se calhar, é), mas a realidade opressora de ser uma “boa mãe” aniquila a boa-vontade de conseguir reunir paciência para enfiar um corpete asfixiante e um cinto de ligas que magoa as coxas de um jeito muito pouco estimulante. E se juntarmos a essa receita um maridinho panhonhas q.b., ficamos com o guisadinho deprimente do costume. Normalmente, desse tipo de relação, para além dos filhos que representam uns quaisquer pontos estatísticos percentuais, só há uma outra coisa que realmente nasce… um belo par de cornos na testa de um dos respeitosos cônjuges (ou de ambos). Diz o senso comum que, normalmente, é a mulher que leva o troféu. (o senso comum sabe lá o que diz!) Já não seria a primeira vez que uma mulher se enrolaria comigo numa sessão muito carnal de coiso e tal, minutos depois de me ter dito que estava interessada em outro homem. Isto não é um juízo de valor, nem nada que se pareça (confesso que até me faz crescer uma pontinha de entusiasmo adicional… não é que seja necessário, entenda-se!). Mas serve apenas para demonstrar que o senso comum, no que diz respeito a conhecimento de facto, deixa muito a desejar quando está em causa avaliar as atitudes das pessoas. E quando as pessoas se sentem sufocadas pelas vidas que levam, e se apercebem de que a vida é realmente demasiado curta para se pensar duas vezes naquilo que se deve fazer sem sequer pensar, os valores subvertem-se mais rapidamente do que os direitos humanos na “República” Popular da China! E, ao fim de uma avaliação verdadeiramente racional, não é difícil percebermos que esses tais “valores” não valem assim tanto. Não, se tivermos de os manter com uma obrigatoriedade de consciência e não com a voluntariedade do coração. Se esses valores nos forçam, a inflação do cinismo e da hipocrisia deixam-nos pobres e a pedir. Mas a pedir para dentro, em silêncio, esperando… esperando… e esperando mais… até que um dia, o Diabo entra-nos no corpo e, fartos que estamos de “boas mães” e maridinhos panhonhas, o cão marca o seu território e a cadela coloca o nariz contra o vento. O ser humano jamais se livrará dos primórdios animalescos. Foi dessa lama ancestral que surgimos e é lá que inexoravelmente acabamos por regressar. A ilusão da civilização é apenas o agradável sumo natural de laranja que emborcamos para disfarçar o sabor amargo do ácido acetilsalicílico. Quem se aceita como é, com tudo o que isso pode ter de menos bom, e até vergonhoso, empurra o raio da aspirina garganta abaixo com água da torneira, mesmo que saiba a lixívia, sem esquisitices de criaturas domesticadas. Ter o Diabo no corpo não é só arder com a vontade de foder! O Diabo é muito mais do que isso! É a vontade de sermos verdadeiros com aquilo que queremos para nós e dos outros! Quando vive cá dentro, o Chifrudo diz-nos que ter cornos não é o fim do mundo! O danado ri de nós, e conta-nos um segredo. Diz-nos que o fim do mundo é um amor civilizado onde “ a boca da mãe que beija os meus filhos não me faz broches”.

Cão Sarnento.



Viúva Negra


Isso de a fêmea comer o macho tem muito o que se lhe diga. A meu ver, qualquer macho que saiba reconhecer as coisas boas da vida não se importa nada de ser comido pela fêmea durante parte da cópula (só “parte”). Mas isso de ser comido depois da cópula é que… alto e pára o baile! Suponho que a generalidade das pessoas tem um conhecimento básico da existência de uma simpática fêmea aracnídea que dá pelo virtuoso nome de “viúva negra” (provavelmente, haverá uns quantos que não saberão de onde vem esse nome, mas esses também não interessam nem ao menino que nasceu nas palhinhas). Adiante. A questão, seus espécimes distraídos, é que a relativa superioridade física do macho já não está a fazer o seu trabalhinho como deve ser. Primeiro, a cada dia que passa, aumenta a quantidade de homens que não se importam de ser comidos pela fêmea durante a cópula (confesso que também tenho culpas no cartório, até certo ponto… uns minutos de passividade permitem um necessário descanso para aguentar a razoável conta de cinco ou seis seguidas), passando cada vez mais para as mãozinhas delicadas das mulheres o leme do barco do amor (uma evidente analogia para sexo suado e gemido, claro está). Mas isso até nem é mau de todo. Há que saber variar e aproveitar a maré. Acontece que o que se torna grave é o aumento da quantidade de machos que não se importam de ser comidos durante a cópula toda. Isso não! Isso não, pá! Tenham lá respeito pela digna reputação dos outros machos que gostam de fazer da coisa o proveitoso e justo “dar e receber”. É que, depois, elas tomam-lhe o gosto à dominância e daí podem surgir duas consequências distintas, mas ambas de inconcebível gravidade! Por um lado, podem começar a entender que, afinal, até gostam de mandar, e depois não querem outra coisa. E, então, seus pirilaus submissos, o que será feito da bela da palmada? Hã? Hã? Vão agora pôr-se de gatas, deixar que os papéis se invertam, e que as palmadas mudem de nádegas? E depois de o homem estar de quatro, com o campo de visão apontado no sentido oposto às mãos da mulher, o que é que a impede de cometer outros ataques traiçoeiros com o auxílio dos mais variados apetrechos? A coisa pode ter consequências seriamente dolorosas! E os apetrechos que existem, bem… seriamente dolorosas! Não é que as minhas nádegas desdenhem uma ou duas palmaditas de mãos femininas (sim, é preciso especificar), mas o que é de mais é erro. Já o dizia a avó caduca de alguém (e que, se calhar, nunca chegou sequer a dar uma palmadita no rabiosque do seu respectivo cônjuge). E, como se não bastasse esta aterradora perspectiva, resta outra ainda mais apocalíptica. Há que fazer a horrível pergunta: “E se, em vez de tomarem o gosto ao domínio que exercem, as mulheres acabarem por perder o tesão face à passiva submissão dos homens?” É que não estão mesmo a ver! Depois é que estaria mesmo o caldo entornado! Onde é que este muito justo Cão Sarnento encontraria uma fêmea que, em vez de aceitar uma saudável parceria, quisesse armar-se em dominatrix com apetrechos potencialmente dolorosos? E isto, no caso de encontrar uma das que tomasse o gosto ao papel de sexo dominante. Então e se eu desse de cara (entenda-se, de anca) com uma das outras? E se me saísse na rifa uma das que perdeu o interesse pelo vaivém da pélvis por causa das suas anteriores e medíocres escolhas, que a levaram a trocar fluidos orgânicos com espécimes frouxos? Santíssima Trindade e mais o Divino Amante! Não quero nem pensar! Qual holocausto nuclear, qual quê! Essa desgraça seria o proverbial embate do meteorito apocalíptico que levaria à extinção da espécie! (pelo menos, a espécie do Cão Sarnento). E toda essa hecatombe adviria apenas da passividade inerente ao facto de o macho se deixar comer pela fêmea durante a cópula. As vértebras da minha resoluta coluna até tremem ao ponto de se deslocarem em dolorosas hérnias discais, por saber que também há cada vez mais homens que se deixam “comer” pelas mulheres depois da cópula! Mas isso já é uma questão da mente e não do corpo. E deixem-me que vos diga (que remédio têm senão deixarem… that’s right, my blog!)… há um velho ditado hebreu que diz: “Sempre que um homem é comido pela mulher depois da cópula, há um rapaz que nasce para se tornar padre católico.” Toda a gente sabe que os padres católicos são homens que aparentemente negam “o que Deus lhes deu” (rio-me, pois claro!). Apenas por este indício, podem calcular a gravidade da conjuntura cósmica! OK, pronto… pode ser que não exista esse tal ditado… mas existem, de certeza, muitos homens a serem comidos pelas mulheres durante e depois da cópula. E se essa perspectiva não faz nascer mais futuros padres católicos, pelo menos, faz-me encolher os testículos no escroto! (não, também não é lá muito agradável).

Cão Sarnento.

Pop the cherry


Perder a virgindade. Afinal, o que é isso? Qual a grande importância dos três vinténs? Se me perguntarem, possuir três vinténs não é assim tão grande fortuna. Ainda para mais se considerarmos o ridículo valor do dinheiro nos dias que correm. No que me diz respeito, não quero cá virgenzinhas para assuntos de dar à anca. Sem qualquer dúvida, prefiro alguém que já saiba muito bem o que quer e, por definição, o que não quer. Suponho que não seja lá muito agradável estar a meio do “vamos a isso” e a menina começar a dizer que, ah, e tal, afinal isto não é bem o que eu fantasiava… a tua pila é demasiado grande, ou demasiado pequena (sim, como se a virgenzinha tivesse mesmo termo de comparação para além do eventual dildo!). Mais vale encontrar uma fêmea experiente que me diga logo que dali não levo nada. Poupa-me o esforço de tentar levar o que quer que seja, e, honestamente, na minha escala de valores, tal atitude engrandece a mulher que possua suficiente segurança para demonstrar tal frontalidade. Suponho que muitos machos (pronto, talvez a maioria mesmo) tenham nas suas cabecinhas badalhocas a fantasia de velho tarado, que os coloca numa situação em que lhes é servida de bandeja uma inexperiente virgenzinha para eles desflorarem a seu bel-prazer, isto enquanto, obviamente, a jovem (ou nem por isso… há muitas retardadas) abre as goelas num berreiro de “ai que és tão grande”, coisa que efectivamente faz com que o macho se sinta grande, mesmo que tenha herdado genes vagabundos e seja, na verdade, a versão portátil do soberbo mecanismo masculino. Suponho que esta taradice dos homens em geral, no que concerne a fêmeas virgens, deve-se essencialmente a duas razões: a) um mal resolvido complexo de Lolita, coisa que, sendo a causa verdadeira, dificilmente será resolvida; b) a manifesta insegurança do macho que, pelo sim, pelo não, prefere deitar as manápulas a uma fêmea que saiba menos do que ele (neste caso, nada), para que o triste exemplo masculino possa brilhar em todo o seu falso esplendor. E depois, também há a questão feminina. Raios me partam se possuo uma compreensão aceitável da mania das fêmeas em quererem transformar a roubalheira da sua virgindade num qualquer épico cinematográfico de romantismo inigualável! Tenham tino! Salvo as felizes excepções, a coisa fica muito aquém das expectativas que foram crescendo para além de qualquer limite razoável. A maioria das virgenzinhas acalenta desde cedo o desejo idílico de “se entregarem” (deixem-me rir!) ao seu mais que tudo do momento. Dois pontos importantes: primeiro, muitas dessas tolinhas não fazem ideia de que o seu tal mais que tudo não tem por elas um afecto assim tão elevado e que, lamentavelmente, pretendem apenas uma fodita com uma mulher que, à partida, não poderá comparar o seu desempenho com o de qualquer outro macho; segundo, se o tal rapazola é mesmo o mais que tudo, e as suas intenções são “as melhores” (deixem-me rir outra vez!), e tendo em conta que normalmente the first time sucks, por que raio hão-de as virgenzinhas querer causar uma primeira má impressão no seu mais que tudo? É claro que não estou a sugerir que aquelas que já arranjaram um atrelado masculino vão dar a primeira com outro apêndice qualquer à laia de test drive, para se habituarem ao ritmo da coisa, e que então depois se dediquem a fazer a devida rodagem com o amorzinho. Não, nada disso. A minha sugestão é: primeiro, vivam; depois, apaixonem-se; e, por último, vivam essa paixão. (por “vivam” entendo “experimentem”, e notem que eu não disse “amem”, nem “vivam esse amor”… a maior parte das pessoas não sabe reconhecer a verdade desse sentimento mesmo que lhe seja esfregado no nariz com almíscar de trazer lágrimas aos olhos! Mas, por outro lado, quase todos sabem reconhecer mais ou menos a intensidade da paixão quando os corpos se descontrolam e começam a tremer como varas verdes, mesmo sem sentir frio ou fraqueza. Epá! Grande parêntese!). Bom! Abreviando… a única virgindade que me interessa é aquela que já se foi. Essa é a que dá lugar à experiência que, de vez em quando, me permite aprender alguma coisita relevante com determinada fêmea. E admito que ultimamente tenho aprendido algumas pequenas pérolas de sabedoria com uma ou outra mulher. Escusado será dizer que não me tenho relacionado com criaturas virgens. O meu sincero agradecimento a quem me ensina (mesmo sem intenção, e sem dar por isso, que é assim que aprendo mais e melhor). Quanto às restantes (as virgenzinhas) tratem lá disso, que depois terei todo o gosto em desmistificar a idiotice do senso comum que afirma ignorantemente que cão que ladra não morde.
Cão Sarnento.

O Perfume


Qual o cheiro de uma mulher? Qual o aroma que faz o macho virar a cara e erguer o queixo para sentir a presença da fêmea com a qual acabou de se cruzar? Que explicação nos dá a racionalidade para esse mistério primitivo que nos prende ao outro sexo? Será que as feromonas explicam tudo? (oh! Não me chateiem agora com o que são feromonas… vão ver ao dicionário!) Na minha respeitável opinião de Cão com olfacto apurado, parece-me que a primitiva natureza animal não explica tudo. A meu ver, a natureza humana tem uma palavra a dizer acerca do assunto. Ao fim e ao cabo, todos somos animais racionais (supostamente). Mas, se o calor do cio que parece dominar todas as outras espécies exercesse igual absolutismo tirano nas pessoas, dificilmente algum dia teríamos ouvido falar em disfunção eréctil (pelo menos derivada de causas psicológicas). Não havendo nenhum impedimento físico para a obtenção de uma orgulhosa e funcional erecção, bastaria que o macho dilatasse as narinas e se deixasse levar pelo perfume de “je ne sais quoi” (ou de fêmea, se assim preferirem aqueles que não percebem o meu admirável francês de vão de escada). Mas isso não corresponde à implacável realidade, pois não? O facto é que, muitas vezes, o cheiro da fêmea não chega para excitar o macho. Admito que o perfume de um corpo de mulher possa despertar o desejo de um homem, mas, por si só, não exerce poder suficiente para manter esse mesmo desejo para que a coisa dure mais do que uns vergonhosos sessenta segundos. A excitação tem de ser estimulada. O macho tem de farejar mais, e mais fundo. Tem de encostar a cabeça no ombro da mulher e inspirar o perfume do seu pescoço. (esqueçam os perfumes com nomes de paneleiros italianos ou franceses… falo do perfume da carne, que emana através da permeabilidade de cada poro da pele da mulher). O homem tem de deslizar o rosto pelo meio dos peitos da mulher e sorrir com a grata recordação de uma infância despreocupada e cada vez mais longínqua… é esse o perfume dos mamilos rijos de uma mulher excitada… saudade da infância. Mas o macho tem de farejar mais fundo ainda. O queixo do homem tem de percorrer demoradamente o ventre horizontal da mulher e parar a meio, de rosto assente sobre o umbigo, sentindo o odor quente da pele em ondas de calor que lhe invadem as narinas. É nesse instante que o cabelo se eriça na nunca do homem ao sentir a pele arrepiada da mulher. É a antecipação. É o crescer da vontade (quando a mulher já começa a pensar: “anda mas é lá com isso, que já não me aguento!”). É então que a mulher abre mais as pernas. Mas o homem não vai logo lá, com a sede toda ao pote (pelo menos, não aquele que sabe o que está a fazer). O homem insinua-se pelo meio das pernas da mulher e prolonga a sua vontade de sentir o perfume que o puxa para o calor que mais aquece. O homem encosta a face às coxas da mulher e demora-se na sua vontade de sentir o cheiro da pele macia. O canto dos lábios dele toca na pele dela com um “sem querer” fingido que não convence ninguém. É nesse momento que os olhos do macho sobem e encontram os da fêmea. É nesse momento que ambos os animais sorriem. A mulher sente-se quente. O homem sente-se aquecê-la. O homem aproxima o rosto para sentir o perfume mais intenso. Cona. O instinto do macho rebenta a escala da irracionalidade, e mesmo o mais imbecil deles sabe perfeitamente o que fazer. Mas não é isso que verdadeiramente excita o homem. O que lhe dá o tesão de que necessita (que ambos necessitam), não é o cheiro do sexo da mulher, é aquela expressão nos olhos dela… é a vontade dela em sentir o homem dentro de si. Isso sim… é coisa que desconcerta! Que engrandece. Que faz arder por dentro como quem bebe um engasgado shot de tequila à pressão, e depois leva uma valente palmada nas costas. Então, a que cheira a mulher? A fêmea não poderia ter um perfume mais forte. A mulher cheira à irresistível vontade de tê-la! (bem, quase irresistível… não, irresistível… mas, vendo bem… não, é mesmo coisa do catano, vontadezinha danada… ora, não vamos exagerar… pronto!... é coisa!).

Cão Sarnento.

És a minha vida...


Amo-te mais do que a própria vida! Quero-te mais do que a mim mesmo/a! Hã?! Mas afinal, que lorpice é essa que aniquila células nervosas, impedindo os seres humanos de abrirem os seus olhitos (que supostamente permitem aprender através da observação) e de fazerem bom uso da afamada racionalidade? (que evidentemente anda muito sobrevalorizada) Pois é… e quando a coisa dá para o torto, venha lá o amiguinho frasco de comprimidos, ou outro qualquer veneno que, depois de devidamente enfardado goela abaixo em doses cavalares, permite ao/à pobre imbecil (na sua maioria, fêmeas) o derradeiro e dramático suspiro: “Adeus, mundo cruel!” Ora, deixem-se lá disso, idiotazinhos de cérebro mirrado! Não há absolutamente nenhuma razão válida que justifique o suicídio de uma pessoa perfeitamente saudável e, ainda por cima, jovem. (é claro que isto não inclui o falso moralismo de “ah, e tal, eutanásia não, porque é errado”… experimentem sofrer de uma qualquer doença degenerativa dos tecidos, e desumanamente dolorosa, que depois quero ver se ainda arrotam moralidade podre em forma de postas de pescada acondicionadas em contentores com o gerador do frio avariado). Mas como eu dizia, não há justificação alguma para essas atitudes acéfalas decorrentes de um qualquer namorico mal amanhado e respectivo cataclismo emocional. O que há, e em deprimente abundância, é um chorrilho de desculpas esfarrapadas para validar atitudes de pessoas fracas, e pouco criativas, para encontrarem algo melhor que possivelmente não lhes dê desgostos tão profundos. Na verdade, nem me sinto bem ao chamá-las de pessoas. O termo comparativo ofende-me. São apenas “pessoazinhas” que nunca chegam a ser pessoas. Que nunca chegam a ser nada, para além de uma memória deprimente. Todas as pessoazinhas que cometem essa alarvidade nem sequer percebem que, ao fazê-lo, estão precisamente a dar razão às pessoas que as mandaram plantar batatas. Estão a admitir que nem sequer conseguem manter o simples e natural acto de viver. Assim sendo, como raio esperariam conseguir viver “e” amar? Amar pesa demasiado nas costas das pessoas. Não é só no peito. Amar não é só encher o peito e suspirar pelo/a palerminha que “não tem defeitos”. Amar é tanta coisa junta que, a maior parte das vezes, confunde a percepção e parece que amar é tudo. Pois fiquem sabendo que não é. Para que a coisa seja oficialmente TUDO, há que amar e ser amado/a. E sabem que mais? Raramente se acerta à primeira. Poucos abençoados se podem gabar de tal sorte sem mentirem com os dentinhos todos. E mesmo nessas poucas excepções que subvertem o predomínio do processo de tentativa-erro deve estar presente que, para amar, é preciso sofrer. (não, não me refiro a jogos premeditados que visam magoar a outra pessoa apenas por maldade ou simples falta de carácter… refiro-me ao sofrimento que vem da certeza de que, a um dado momento, mesmo a pessoa que ama e é amada sempre perderá a pessoa que ama e por quem é amada… é o inexorável processo de perpétua renovação de gerações que nos leva a exclamar resignadamente: “É a vida!”) Nunca, em qualquer outro momento, as pessoas valorizam tanto o bem-estar como quando sentem o desconforto. Quem sabe o que é dor a sério é mais sábio no valor que atribui a cada momento em que não a sente. Quando amar é o que é, sabem qual é a dor maior e o receio mais profundo? Não é perder a pessoa que amamos… é que a pessoa que nos ama nos perca. É claro que estas palavras (se interpretadas por alguma lógica retorcida) podem parecer dar razão a essas pessoazinhas que emborcam cápsulas de fármacos dos quais não necessitam, mas de modo algum é esse o caso. Para que percebem, basta que saibam a resposta a uma pergunta simples: “Qual é a primeira pessoa que me deve ter amor?” A resposta não poderia ser mais óbvia: “Eu”. E se a construção de uma pessoa não começa por aí, com o ponderado assentar dessa pedra basilar, não há nenhum prodígio de engenharia espertinho que sustente o que quer que seja em cima dessas fundações defeituosas. Se a tal cara-metade se vai, que se vá. Então, que vá, pá! Deixem-se lá de “ai que sou a vítima”! O mais certo é já terem também, no passado, deixado em cacos o coração de alguém (que não se suicidou por causa disso). E se a tal pessoa “mais do que tudo” se foi, acreditem que não será por via de uns quantos comprimidos que haverá algum regresso “Hollywoodesco”, com orquestra de fundo a deixar lágrima no canto do olho. O mais triste é que muitas dessas pessoazinhas devem mesmo pensar que estão apenas a arranjar uma maneira de chamar a atenção, na esperança de que o Universo reveja as leis da atracção e que o/a tal que se pirou perceba finalmente o seu infinito amor e regresse para os braços do/a suicida patetinha. Yeah, right! Vão mesmo querer ter filhos com alguém que demonstra tão limitado respeito pela própria vida. E essas criaturazinhas (limitadas de assunto suficiente para levar uma vida digna do conceito de viver) não querem verdadeiramente morrer. Apegam-se à ideia de que uma rápida ida às Urgências, e uma bem sucedida lavagem ao estômago, as livrará da foice da senhora ossuda, como se nada tivesse acontecido. Mas não lhes cabe nas cabecinhas que o máximo que poderão conseguir é chamarem a atenção para o quão patéticas são, e como foi acertada a decisão de alguém as abandonar. Já nem vamos mencionar a probabilidade respeitável que aponta para a eventualidade de que, efectivamente, poderão MORRER. Tenham lá juízo! No dia em que cada pessoa nasce, nascem mais alguns milhares razoáveis. É uma burrice estatística pensar que apenas uma delas representa a metade que falta. Let it go!

Cão Sarnento.

Quem não tem cão caça com gato



Masturbação. Normalmente, o sexo masculino é o culpado do costume. Dizem agora os alegados entendidos que a coisa começa bastante cedo (ainda no ventre da mamã), pelo que, quando o puto salta cá para fora, já vem com as mãos calejadas para o que há-de ser um dos seus passatempos preferidos durante a puberdade (ou “pobre idade”, se preferirem… tanto se me dá). Ora, que os rapazitos em geral se dedicam a essa milenar actividade amplamente conhecida como punheta, não é novidade por aí além. Tal como não causa significativo espanto constatar que mesmo quando esses brincalhões deixam de ser rapazitos, no entanto, não deixam de esgalhar o pessegueiro (outro dos nomes para a coisa… para manter o ridículo num nível aceitável nem sequer vou embarcar em teorias de como terá surgido esta expressão). Ora, tudo muito bem e sim senhora! A rapaziada em geral (independentemente da idade) farta-se de brincar com o que Deus lhes deu (não vamos agora discriminar os Criacionistas, porque eles também esganam o ganso… sim, outro nome). Mas… não só! Então e o mulherio em geral? Mas será que as fêmeas não andam também lá a chiscar no que lhes aquece o baixo-ventre e faz gemer? (pergunta meramente retórica, entenda-se). Pois podem apostar que andam! Ai andam, andam! Mas muitas ainda são partidárias do tal movimento que consiste em atirar com a pedra e esconder a mão. É das tais coisas que as pessoas em geral gostam de exclamar com um misto de orgulho e indignação: “EU NÃO!” É caso para este Cão dizer: “Tenham lá vergonha na cara, e deixem de ter vergonha na cara!” (apesar da aparente contradição, eu quis dizer exactamente o que disse… quem não esconde a mão depois de atirar a pedra entenderá perfeitamente). No que toca aos machos, já nem sequer vou aprofundar a questão. Dizer que tocam umas gaiolas de vez quando é basicamente chover no molhado. É assunto banal em conversas de ocasião. Gostaria de poder dizer o mesmo no que toca às fêmeas. Não vejo qualquer razão válida que justifique a vergonha que as mulheres sentem em admitir que quando a vontade é danada, e não há um apêndice masculino a jeito, elas também vão lá com a mãozinha chafurdar no meio das pernas, esfregar-se como quem se consome em comichões que não param enquanto o clit não levar uma valente tareia com os dedinhos. A verdade é que os dildos existem e são fabricados numa porrada de tamanhos e feitios. E mais ainda… o raio das coisas vendem-se razoavelmente bem. Em algumas áreas mais cosmopolitas, são tão populares como um prato de tremoços numa mesa de cervejaria. Pois é, senhoras e senhoritas (e todas aquelas que mais cedo ou mais tarde deixarão de ser “pitas”), comecem a praticar a honestidade da consciência e… como é que é mesmo? … Ah! A verdade vos libertará! As mulheres só têm a ganhar se estiverem dispostas a uma maior abertura quanto chega o momento de dizerem a um homem que “sim, senhor, meu menino… eu enfio os dedos na crica (seja lá qual for a expressão que usam) sempre que me apetece a valer e tenho oportunidade de o fazer.” O que têm a ganhar com a honestidade? Bem, a resposta completa é demasiado extensa, mas cingindo-me ao assunto em questão: mais prazer. Uma mulher que se toca, toca-se onde gosta e da maneira que mais gosta. Para quem tem dois dedos de testa, eu não precisaria de me alongar na explicação, mas como há testas mais curtas do que outras, a necessidade impõe-se. Melhor do que ninguém, a mulher sabe onde e como gosta de ser tocada. Resumindo as suas opções a duas possibilidades bastante elucidativas, às mulheres resta-lhes: a) serem honestas com os homens, admitirem que também brincam sozinhas, e dizerem logo aos respectivos amorzinhos e afins como é que gostam que o pão seja amassado, evitando assim frustrações de desejos e perdas de tempo que não contribuem de modo algum para uma lubrificação desejada (ou seja, tesão medíocre); b)continuam na sua eterna negação puritana, e fazem figas para que o gajo a quem encarregaram de puxar o lustro às jóias de família seja um excepcional Cão Sarnento que já saiba de cabeça em que sentido deve mexer o açúcar, e qual a temperatura certa para um excelente ponto de rebuçado. Se optarem pela a), não vou estar aqui a vender a banha da cobra… mesmo com a declaração explícita de que gostam disto e daquilo, em muitos casos, a coisa não vai lá logo à primeira (há que escolher muito bem o macho em quem depositar tão útil conhecimento). Quanto a isso não há nada a fazer. Será sempre um processo de tentativa-erro. Se a opção for a b), bem… preparem-se para muitas tentativas e muitos erros. A moral da história? Às vezes, quanto menos moral melhor!
Cão Sarnento.

Do you feel lucky?


Ouvi dizer a alguém, certa vez, que num encontro entre um homem e uma mulher, esta leva sempre uma vantagem… que a mulher sabe, à partida, uma coisa que o homem não sabe: a mulher sabe se o homem vai ou não “ter sorte”. Não vem ao caso saber se foi homem ou mulher que fez tal afirmação. O certo é que já lá vão alguns anos, e nessa altura eu simplesmente acenei afirmativamente e concordei. Mas o mundo é mesmo um camaleão com crise de múltipla personalidade e muda que se farta com o decorrer dos tempos. Nos dias que correm, simplesmente já não posso concordar com essa tal afirmação que ouvi. Já não sou o cachorrito inocente que latia em vez de ladrar, e já deixei de ser o cão que ladrava em vez de morder. Agora sou Cão Sarnento e mordo até deixar de querer. Confesso que ainda hoje há encontros em que não posso afirmar à partida se terei sorte ou não. Isso mantém-se (felizmente, diga-se de passagem). O que mudou é que (falo por mim) agora as mulheres também já não sabem se elas vão ter sorte. Sim, sim, elas! Sempre se fez uma abordagem errada do assunto. Tendo em conta que as mulheres dispõem da vantagem fisiológica dos tais orgasmos múltiplos, é justo afirmar que elas têm mais sorte do que os homens quando se decide “haver brincadeira”. A ideia de que um homem não recusa sexo é simplesmente um desgastado absurdo que ainda assombra as ruínas de convicções retrógradas. Não vou estar com hipocrisias de dizer que não há uma permanente (quase ininterrupta) predisposição do macho para o “truca-truca”, mas o facto é que a coisa não apetece mesmo sempre. E, no que me diz respeito, há a possibilidade de recusar, mesmo querendo. É que há coisas que se sobrepõem ao tesão (já agora, tesão é um substantivo masculino! Vejam lá se entendem isto de uma vez! Por isso, caras mulheres pouco entendidas nisto, deixem lá de dizer “a tesão”, que isso é simplesmente errado! E, para além disso, desvirtua a coisa! Se quiserem, chamem-lhe “a fome”, “a vontade”, ou todo e qualquer adjectivo feminino que sirva para tapar o buraco. Mas se querem dizer “tesão” usem o singular do artigo definido que antecede substantivos masculinos, c’um camandro!) Ora, onde é que eu ia mesmo? Ah, sim… afinal, o que é que se sobrepõe ao tesão na vontade de um homem? Bem (mais uma vez, falo por mim), por exemplo, perceber que a mulher age como quem está segura de que fazer sexo depende apenas da vontade dela. Isso é subverter a capacidade do macho em sobrepor-se aos seus instintos primordiais que (apesar de saudáveis, e muitas vezes satisfatórios por si só) não definem a sua maneira de ser de modo tão limitado. Já para não falar que é perfeitamente imbecil a ideia feminina de: “é só eu querer”. Sim, admito que será… com a maioria dos machos que para aí andam em carestia de coisa boa e razoavelmente difícil de abocanhar. (é claro que por “razoavelmente difícil” entendo a existência do tal jogo de divertida sedução em que a fêmea sabe parar de se esquivar das investidas do macho antes que este se ponha a andar… só mesmo os necessitados é que toleram essas merdas das “Ai! Não me toques, que me desafinas!”, garanto-vos. Pronto, OK, vamos também incluir os palermas em geral, os ingénuos e inexperientes, os pobres coitados com crise de autoconfiança, e a restante escumalha que cabe na abertura do ecoponto azul, onde se podem enfiar para futura reciclagem todos esses tristes papéis que interpretam). Hoje em dia, prefiro pensar que, durante um encontro, ambas as partes sentem vontade de ter sorte e que tanto o homem como a mulher se interrogam: “Do I feel lucky?”
Cão Sarnento.

"Dá-me o que sentes."



“Dá-me o que sentes. Tudo o que tens, quero. Isso é o que sei. O resto não quero saber.” Estas e outras alarvidades igualmente indicadoras de aguda alienação da realidade são provenientes de um estado de instabilidade mental vulgarmente conhecido como “sei lá” (não, não estou a dizer que não sei como se designa esse estado mental… apenas estou a dizer que eu lhe chamo mesmo “sei lá”). Chamem-lhe amor, paixão, cegueira sentimental, andar ao cheiro (you know what I mean), ou qualquer uma das infindáveis expressões que achem ter mais significado (como se isso tivesse um átomo de importância para mim). Seja qual for o lindo rótulo que colem na garrafinha, a coisa há-se sempre saber a limonada caseira feita à pressa com limões verdes, sem açúcar nem regulador de acidez. Sim, há quem goste. Quando a sede manda não se pode estar com esquisitices. O corpo pede e a gente dá (a gente, salvo seja… apenas uma expressão). Ora, e onde é que eu pretendo chegar com este palavreado? É com um certo desânimo que admito… a nenhures. (gosto desta palavra… nenhures nenhures nenhures). Bom! Então, para que raio serve isto que eu estou para aqui a dizer? No que me diz respeito, é a justificação do costume: eu desbobino para aqui uns metros de retórica e vocês maravilham-se com a minha infinita sapiência (ainda que, sei-o bem, nem todos percebem à partida as verdadeiras trufas camufladas no lamaçal das entrelinhas). Quanto àquilo que cada um pensa daquilo que escrevo… bah! Who gives a rat’s ass! Mas como eu estava a dizer (e muito bem, diga-se de passagem), a média de parvalheira sentimental que embota os sentidos ao comum mortal é bem mais elevada do que seria desejável. Muito para lá dos muito por cento! (quem perceber de números “irracionais” saberá que se trata de uma percentagem astronómica). Senão, vejamos… aaa… hum… eu sei que tinha para aqui um brilhantíssimo exemplo que não me ia deixar ficar mal, mas… aaa… foi-se. Bom! O que lá vai, lá vai. Não vamos agora chorar sobre leite derramado. Voltando ao cerne da questão, por que raio é que as pessoas ficam simplesmente imbecis quando aparece alguém que lhes diz: “olha lá, ó pessoazinha razoavelmente interessante… eu gramo-te à brava, tas a ver?” (OK! Admito que possa haver outras formas de abordagem… não vamos agora ser picuinhas). Confesso que isto é entendimento que a minha vasta sapiência não encaixa. Logo que sentem que alguém lhes lançou a rede, as pessoas deviam era abrir a pestana e ficar mais espertinhas. E não o contrário. Nunca o contrário, pá! Mas nããããooo. Pum! (não tem nada a ver com incómodas (dis)funções fisiológicas) Lá vai tiro no próprio pé! Pronto! E agora, a parte séria (para não dizerem que falo, falo…). Então, é o seguinte… o mundo, minha gente, é uma grande bola (dizem) ligeiramente achatada nos pólos e… espera lá… hum… não, esta parte também não vai servir para aprender nada de novo. Certo! Agora é que é! Não há cá essa coisa de oferecer o que se sente. Há que ser marroquino! Barganhar! Discutir valores. Em muitos por cento (novamente a tal percentagem astronómica), ceder à primeira oferta significa não ficar com o melhor negócio possível. Entregar o ourinho todo na primeira mão estendida que o pede é praticamente pôr no prego as jóias da família quando se sabe à partida que mais tarde não haverá dinheiro para as resgatar. Nada de convencimentos imediatos de que “agora é que é”. Se aparecer a tal pessoazinha cujo interesse vai além da dedicatória espertinha, bem memorizada de cor e salteada, que traz sempre consigo no interior da capa, há que lhe perguntar o que pretende fazer com aquilo que pede. E agora um conselho de amigo (mesmo não sendo): mesmo que a resposta seja convincente e caia bem no ouvido, desconfiem. Desconfiem, pá! (que nem toda a gente é tão honesta como eu!) Nunca é demasiado lembrar que nem tudo são rosas. E, mesmo que tudo sejam rosas, até as rosas têm espinhos. (epá! Às vezes, até fico maravilhado comigo mesmo!) Enfim! Mas até parece que eu estou mesmo a tentar dar conselhos sérios e preocupados! Ó santíssima inocência! Aqui só há uma coisa verdadeiramente séria e preocupada… aaa… hum… o que era mesmo? Oh, raios! Também se foi! Eu até ia mesmo dizer algumas coisas repletas de um qualquer sentido filosófico e meritórias de aprofundados pensamentos que durassem mais de dois segundos mas, vendo bem, a madrugada avança e é tempo de encher a pança (só para rimar). Ainda por cima, prevê-se mais um dia nublado, cinzento e deprimente. Se é mesmo para chover assim, quando já devia estar um calor digno de liberais práticas sexuais misturadas com salutar nudismo, que venha logo a porcaria do Cataclismo Líquido! (algo do género “ Dilúvio 2, o regresso de Noé”, ou o catano!) Ainda por cima, não dormi nada (no sentido literal). Por isso, acho que o Altíssimo me perdoa o desabafo de dizer que o São Pedro é mesmo um gaioleiro! Agora só me faltava que alguém me viesse pedir o que eu sinto! Havia de ser lindo, havia! Levava daqui uma rica prenda do Apocalipse!

Cão Sarnento.

Hard-core atravessado na garganta




“Vamos foder.” Mas, afinal, qual é o problema com esta simpática sugestão? Se é o homem a sugerir à mulher, a fêmea parece interpretar como o maior dos insultos à sua querida mãezinha. Se é a mulher a sugerir ao homem, o macho… bem, normalmente fica logo assustado e a fazer contas à sua prezada masculinidade. O que raio se passa com o mundo, “mes enfants”? (oh, sim… agora também uso expressões em Francês). Mas será assim tão difícil compreender que esta e outras falhas de comunicação só aumentam os já gravíssimos problemas de expressão entre os sexos? Vamos lá começar a chamar as coisas pelos seus devidos nomes e deixem-se de eufemismos de merda (ah! Já agora, sempre que quiserem dizer merda, digam mesmo merda e não “porra”… se considerarmos que “porra”, para além da interjeição que significa irritação, impaciência ou descontentamento, também significa pénis, e por proximidade “caralho”, e é ainda uma designação para esperma, se calhar “porra” até nem é uma expressão assim tão eufemística). Mas, como eu dizia antes de tão revigorante lição de léxico, não se metam em atalhos de manias falsamente civilizadas. Por que razão hei-de eu dizer: “quero fazer amor contigo” quando, na realidade, as palavras que me estão na cabeça são: “quero a tua cona”? E a expressão “quero fazer amor contigo” é particularmente imbecil quando nem sequer há amor. Em qualquer dos casos (haja ou não o tal de amorzito), a expressão “quero a tua cona” é sempre verdadeira. Alguém que me diga que isso não é verdade. E não me venham as fêmeas com o paleio do costume… “ah, e tal, pois os homens são mesmo todos assim”. Olha, falam as rotas dos esfarrapados! Até parece que há alguma diferença significativa entre os sexos no que toca à arte de dizer uma coisa e pensar outra. Venham-me agora dizer que se a coisa não for bem trabalhada como deve ser por parte do maridinho ou do namoradinho ainda vai haver a vontadinha de fazer o tal amor. Bem, até acredito que essa vontade continue a sentir-se… mas por outro qualquer que não seja o maridinho ou o namoradinho. É essa a realidade das coisas. E quem sou eu para dizer que a realidade é isto ou aquilo? Ora, isso é coisa que eu não tenho de explicar. Sabendo o que sei, tendo visto o que já vi, e experimentado o que já experimentei, sei perfeitamente que ninguém tem moral suficiente para questionar a validade das minhas afirmações neste departamento. Todos somos uns tarados em potencial. Uns aceitam o moralmente inaceitável. Outros condenam tudo isso com rótulos de coisas escabrosas, lá por detrás do seu escudo da moralidade que eles próprios odeiam na sua intimidade. A grande diferença entre ambos é que uns (os “desavergonhados” como eu) aceitam o que está dentro de si e tudo aquilo que podem ser, enquanto que outros (a triste maioria que gosta de usar a palavra “desavergonhados”) censuram todos aqueles que não se submetem à cobardia do moralmente aceitável. Essa triste maioria faz o seu amor na tal posição de missionário (oh, como eu acho deliciosamente divertida esta expressão!), na comodidade do seu colchão ortopédico, com o mínimo de atrito possível entre os corpos. Não queremos agora pensar que em vez de fazer amor estamos a foder, não é verdade? E ai de ti se gemes! Ao primeiro pio condenas-te. Dizes um “ai” e a submissa esposa imediatamente se transforma na mais lúbrica das grandes putórias! Já o excelente e cumpridor marido também não pode estar com grandes liberdades no meio das pernas da sua respectiva cônjuge. Não vá agora o pobre imbecil descair-se dos hábitos adquiridos em casas de luz encarnada à porta, onde jovens fêmeas das mais variadas nacionalidades aviam piças como quem empacota salsichas numa atarefada linha de montagem onde as trabalhadoras ganham à comissão. É. O mundo é mesmo assim. Podem chamar-me tarado à vontade. Se ser tarado significa agir de acordo com a natureza que nos permite continuar a proliferação da espécie (mesmo sem contribuir propriamente… não tem mal nenhum treinar bastante para aperfeiçoar a coisa), prefiro sê-lo e crescer até ao maior dos hedonistas do que reprimir instintos perfeitamente saudáveis e insistir em dizer que quero provar o meu amor por A, B ou C, quando na verdade quero é “provar” todas as conas de A a Z. Vamos foder.

Cão Sarnento.

Co(r)pos vazios



Desta vez não há ditos espertinhos, apenas uma breve história de coisas que se aprendem sem querer durante um copo e se esquecem logo antes de acabar de beber. Na noite e no dia, no que nos faz e desfaz, no que vive em nós e no que um estranho nos traz. Apenas isso… a eterna história da rapariga e do rapaz:

«As pessoas que encontramos na noite são as mesmas que encontramos durante o dia. No entanto, parecem-nos tão diferentes quando se movem nas sombras mal iluminadas pela luz artificial. Na noite somos todos outras pessoas… artificiais. Ou, se calhar, é assim que somos durante o dia e a noite só nos torna nas pessoas que devemos ser… reais.
A noite é a noite.
O dia é o dia.
E nós somos ambos.
A vida é o que é e não quer saber quem somos quando se cruza connosco durante o dia. Mas na noite todos queremos ser e fazer conhecidos. É estranho que as pessoas que conhecemos nas sombras mal iluminadas reparem mais depressa no copo que temos na mão do que no rosto que temos sobre os ombros. Mais estranho ainda é que quando nos querem conhecer não perguntem o nome do nosso rosto mas sim o nome da bebida que temos dentro do copo. E quando a bebida acabar e colocarmos de lado o copo vazio, ficando só com o nosso rosto em cima dos ombros, como é que vai ser? Será que as pessoas ainda nos querem conhecer? Ainda vão querer saber quem somos? Alguma vez souberam? Ou será que a pessoa que fomos (para elas) se vai embora juntamente com o copo vazio que colocamos de lado. Acho que as pessoas que realmente nos querem conhecer têm de nos perguntar quem somos duas vezes: primeiro, ao copo que temos na mão, e depois ao nosso rosto. Quem se esquecer de nós com a mesma facilidade (quase desprezo) com que colocamos o copo de lado, na verdade, não nos queria conhecer; queria tão-somente não estar só na noite, naquele momento, e saber que bebida bebemos. E depois, aquela certeza que queremos combater de sabermos que, depois da noite, temos sempre de voltar para o dia. É aquela desagradável sensação de cruzar uma porta que esteve aberta toda a noite mas que estará fechada todo o dia. Nesse momento, é terrível a maldição que lançamos à claridade natural do sol que nasce. É como se fôssemos vampiros que deixam o refúgio das sombras e encontram no sol um inimigo. A noite é o nosso santuário; o dia, o nosso campo de batalha. E atravessamos essa porta para nele combatermos; lá deixamos o nosso sangue, o nosso suor, as nossas lágrimas. Depois vem aquela desanimadora sucessão de mal-entendidos que, à luz do sol, nos faz pensar: “Foi aquela pessoa que eu conheci nas sombras? Foi aquele rosto sem cor e cabelo desgrenhado que me cativou o olhar? Foi aquele olhar desinteressante que me pareceu brilhar?” E arrastamo-nos até casa, esperando adormecer o mais depressa possível para que esqueçamos esses rostos que serão esquecidos, e para que passe o nosso mal-estar que passará. Deitamo-nos já de dia e levantamo-nos ainda de dia, fazendo do nosso dia a nossa noite. E depois de dormir, e depois de acordar, do nosso mal-estar fica-nos a recordação sob a forma de uma sensação… um gosto ácido de vestígios de bebida na boca que envolve a língua e torna todos os sabores amargos e desagradáveis. Mas essa até é a melhor sensação se a compararmos com a pior. A pior sensação não nos fica na boca mas sim no rosto, em todo o corpo, quando enfrentamos o espelho, escovando os dentes, sabendo que ninguém nos conheceu e que nós não conhecemos ninguém.
E depois?
Depois pensamos que já conhecemos muita gente e que esquecermo-nos de alguém, de vez em quando, não tem assim tanta importância. Tomamos o nosso banho esquecendo não só as pessoas que conhecemos mas todas e tudo em que tocámos para que agora, apenas e só, tivéssemos memórias, corpo e sensações para lembrar, reconhecer e sentir o cair morno e deslizante da água. Ainda absorvidos pela sensação relaxante de um duche que nos soube melhor ao corpo cansado do que saberia a água ao corpo sedento, é com uma tranquilidade estúpida e apática que, na rua, passamos pelos desconhecidos que conhecemos na noite anterior. Não viramos a cara para lhes dizer olá; apenas os nossos olhos se encontram por instantes, com aquela frustrante incerteza de não sabermos se conhecemos essas pessoas ou se é só impressão nossa. Lembramo-nos então que, se trocámos apresentações e dissemos os nossos nomes, agora estão mais esquecidos do que algo que nunca existiu. Lembramo-nos, afinal, da importância que têm os nossos nomes para os nossos pais, para os nossos irmãos e para os nossos amigos, pois para os desconhecidos que conhecemos na noite não têm importância alguma. As vozes que nos pedem um nome na noite não querem saber como nos chamamos, querem apenas saber como se chama a nossa bebida. Nós respondemos e eles acreditam que é assim que nos chamamos. Aos mais cépticos damos a provar a nossa bebida. Essa é uma vantagem da bebida sobre o nome; não se pode provar um nome. Então, com o sabor do nosso nome ainda às voltas nas sua línguas, inundando as suas bocas e escorrendo pelas suas gargantas, pensam que já nos têm dentro deles e que possuem a nossa identidade como se fossem a folha de papel sobre a qual está impressa a nossa certidão de nascimento. Essa confiança dá-lhes o à-vontade de que o tímido precisa para se expressar. Mas, já com o sabor do nosso nome a percorrer os seus corpos, eles não se expressam; simplesmente, já não se calam… falam, falam e falam. É terrível esse hábito que os consome depois de saberem o nosso nome e provarem da nossa bebida; esse hábito irritante de acharem que as suas vidas pessoais nos interessam tanto quanto a eles e, mais irritante ainda, é mostrarem-se tão interessados na nossa vida pessoal quando, na realidade, não estão. Às vezes, não acredito na quantidade de idiotices que me dizem achando que são irrefutavelmente as mais acertadas e completas filosofias de vida! Ninguém tem filosofias de vida; tem-se apenas vida. O resto é apenas uma compilação de merdas compostas de maneira teoricamente bastante acertada mais ou menos filosóficas mas, de todo, não importantes. Por fim, mais vale mesmo ficarmo-nos pela conversa de circunstância e não lhes dizermos o nosso nome, e muito menos dar a provar da nossa bebida. Devemos dizer o nosso nome a quem não tenha de o perguntar e a nossa bebida é sempre nossa até que, sem que nos peçam, a queiramos dar a provar.
Fim.»

Cão Sarnento.

Sol da minha vida


“Oh, sim, tudo gira à tua volta, meu amor!” Yeah, right! Como se alguém pudesse dizer isso sem mentir com todos os dentinhos que tenha na boca (mesmo que a partir de uma certa idade se minta apenas com as gengivas, não me venham cá com histórias que a ideia é a mesma… a verdade não cresce com a idade, mas sim com o carácter). Sejamos lá honestos! Quando muito, tudo gira à volta da ideia de gostarmos de outra pessoa e não dessa tal pessoa em si. A ideia de se gostar é que nos enche a cabecinha com mundos e fundos (mesmo para quem não conheça esta expressão do nosso extenso acervo de regionalismos, o seu significado é razoavelmente intuitivo). Ora vamos lá encher isto com umas belas analogias. Partindo do princípio que é do domínio geral o básico conhecimento acerca do girassol (a tal planta que segue a trajectória do sol… estava mesmo difícil de se ver), vamos imaginar que a tal pessoazinha por quem se ficou estupidamente “je ne sais quoi” é o sol e que, na mesma ordem de ideias, nós somos o girassol (nós, isto é, vós). Já estão essas cabecinhas a funcionar? Já? Já? Certo. Adiante. Muito bem… o exercício é relativamente simples. Suponhamos agora que de repente dá-se um micro Big Bang no céu e aparece outro sol no extremo oposto acima da linha do horizonte. Pergunta pertinente: em que direcção há-de então o desgraçado do girassol inclinar-se? Pois é! Pois é! Então e agora como é que a tal florzinha amarela (vós) descasca esse abacaxi, hã? Nada mais simples! Faz-se o que se faz na maior parte das vezes… improvisa-se uma mentirola remendada com o pano roto de uma meia-verdade desesperada. “Oh, sim, meu amor… quando estou perto de ti a minha vida é um vaivém de emoções!” Estão a ver bem a trafulhice? Por um lado, não deixa de ser verdade, pois o girassol (sim, vós) vai e vem de um sol para o outro, ao sabor do que mais lhe convém, ou simplesmente ao abrigo da ignorante permissão de um dos luminosos corpos celestiais, ou até de ambos, consoante o nível de sacanice (não esqueçamos que nesta analogia, o sol representa a tal pessoazinha de quem se gosta). Por outro lado, é uma inequívoca e cobardolas indecisão de se escolher o sol que mais brilha e aquece. Mas enfim, estrela a estrela enche a galinha o papo. (oh, poupem-me! Foi o trocadilho que me apeteceu e pronto!) Para não surgir a ideia de que a flor (feminino) que engana o sol (masculino) é a minha interpretação tendenciosa da analogia, também me refiro à flor como girassol (masculino) e ao sol como estrela (feminino). Por isso não me venham cá com teorias mal amanhadas de machismos e tal, que isso cá é selo postal que não cola com uma simples lambidela. O machismo é antagónico da esperteza. E como eu sou notoriamente espertinho… bem, a conclusão é bastante acessível. Continuando… (onde é que eu ia mesmo? Ah!) Pois então, no seguimento lógico da minha excelente analogia, na sua generalidade, os homens são uns grandes aldrabões, e as mulheres umas grandes aldrabonas são. Uns e outros merecem-se tanto quanto as nádegas de uma masoquista merece umas boas chibatadas. (sim, eu disse “uma” masoquista… não é machismo, não… acontece que, como homem, seria no mínimo estranho eu escolher o exemplo masculino quando o feminino está perfeitamente disponível). Mas, para encerrar com uma acertadíssima conclusão repleta de impagável sabedoria acerca dos comportamentos humanos, em última análise, o que cada um vê na tal pessoazinha portadora do vírus da parvalheira, que ataca o coração e desenvolve metástases que fazem mirrar o cérebro, é nada mais do que a projecção de tudo aquilo que nos falta para nos sentirmos completos. (mais uma vez, apenas faço uso da primeira pessoa do plural para uma maior facilidade de expressão). Assim sendo, o que frequentemente se vê nessa tal pessoazinha é a projecção de sonhos e expectativas. As qualidades que se vêem são apenas aquelas que gostaríamos de encontrar projectadas por alguém em nós. Em vez, a desilusão derrota-nos quando percebemos que afinal essa tal pessoazinha não passa de um espelho que reflecte apenas aquilo que projectamos nele. A todos, resta-nos um pequeno conforto: conservar a esperança de um milagre que contrarie tudo isto que acabei de dizer. (sim, desta vez incluo-me no “nós”).

Cão Sarnento.